Comprimido contra câncer de pulmão mantém doença controlada por sete anos em mais da metade dos pacientes
3 de novembro de 2026Estudo com o medicamento lorlatinibe registrou resultados inéditos em pacientes com alteração genética específica; alto custo e falta de acesso pelo SUS ainda são desafios no Brasil.
Um comprimido tomado diariamente conseguiu manter o câncer de pulmão avançado sem progressão por sete anos em mais da metade dos pacientes de um estudo clínico. O resultado foi obtido com o lorlatinibe, medicamento utilizado em casos de tumores que apresentam uma alteração genética específica, conhecida como rearranjo do gene ALK.
Publicado na revista científica Annals of Oncology, o estudo acompanhou 296 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células avançado. Após sete anos, 55% dos pacientes tratados com lorlatinibe permaneciam vivos e sem progressão da doença, um resultado considerado inédito para esse tipo de câncer.
O medicamento representa um avanço no tratamento de um grupo específico de pacientes. Entretanto, não é indicado para todos os casos de câncer de pulmão e ainda enfrenta obstáculos de acesso no Brasil.
Tratamento atua sobre alteração genética do tumor
O lorlatinibe faz parte de uma classe de medicamentos chamada terapia-alvo, desenvolvida para bloquear mecanismos específicos que estimulam o crescimento das células cancerígenas.
No caso do câncer de pulmão, o tratamento é indicado para tumores que apresentam alterações no gene ALK. Essa característica aparece em uma pequena parcela dos pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células.
A identificação dessa alteração depende de exames moleculares que ajudam os médicos a escolher o tratamento mais adequado. Por isso, o acesso ao diagnóstico genético também é importante para que os pacientes elegíveis possam receber a terapia.
Outra característica do lorlatinibe é sua capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro e dificulta a entrada de determinadas substâncias. Isso é relevante porque o câncer de pulmão avançado pode provocar metástases cerebrais.
Estudo aponta avanço no controle da doença
A pesquisa faz parte do ensaio clínico internacional CROWN, que comparou o lorlatinibe com o crizotinibe, outro medicamento utilizado contra tumores com alteração no gene ALK.
Os resultados de longo prazo indicaram uma diferença expressiva entre os tratamentos. Enquanto 55% dos pacientes que receberam lorlatinibe permaneceram vivos e sem progressão da doença após sete anos, o índice no grupo tratado com crizotinibe foi de aproximadamente 3%.
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores destacam que o medicamento não funciona da mesma maneira para todos os pacientes. Além disso, o tratamento pode provocar efeitos adversos, incluindo alterações cognitivas e de humor, o que exige acompanhamento médico contínuo.
Custo elevado dificulta acesso no Brasil
Apesar dos avanços clínicos, o preço é um dos principais obstáculos para ampliar o acesso ao lorlatinibe. Segundo a reportagem do G1, o medicamento custa aproximadamente R$ 37 mil por mês, valor que pode tornar o tratamento inacessível para muitos pacientes.
O medicamento não está incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento inicial desse subtipo de câncer de pulmão. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avaliou a tecnologia, mas a recomendação foi desfavorável à incorporação, considerando, entre outros fatores, a relação entre custo e benefício.
Atualmente, o acesso pode ocorrer por meio de planos de saúde, quando há cobertura prevista, ou por decisões judiciais e pagamento particular. A disponibilidade de testes moleculares também representa um desafio, já que identificar a alteração genética é fundamental para determinar quem pode se beneficiar do medicamento.
Resultado amplia perspectivas, mas não representa cura
Os dados de sete anos ampliam o conhecimento sobre o controle prolongado do câncer de pulmão avançado em pacientes com alteração no gene ALK. No entanto, permanecer sem progressão da doença não significa necessariamente estar curado.
Especialistas ressaltam que ainda é necessário compreender por que parte dos pacientes não responde ao tratamento e como reduzir os efeitos adversos. Também apontam a importância de ampliar o acesso ao diagnóstico molecular e às terapias inovadoras.
O câncer de pulmão continua entre as principais causas de morte por câncer no Brasil. Nesse cenário, os resultados do lorlatinibe representam um avanço para um grupo específico de pacientes, mas a ampliação dos benefícios depende também de diagnóstico oportuno, acompanhamento especializado e acesso ao tratamento.
<sup><sub>Fonte: G1, CNN Brasil e Olhar Digital. Estudo clínico CROWN publicado na revista Annals of Oncology.</sub></sup>




